sábado, 3 de fevereiro de 2018

Simulacro

Enquanto espero,
Com quanto encanto suporto simular normalidade?
Conquanto o tenha feito.
Esconde-te, pranto.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Intimidade,

Eu não te conheço mais.
Desconheço seus pensamentos
e não me reconheço no teu desejo.
. . .
Muda pra mim
Assim como emudeci
Ou caí no esquecimento

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Pranto

se cada vida contém um tanto exato de respirações,
teria o sofrimento um justo número de lágrimas a derramar?

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Citação

Ou quando a poesia aparece travestida de filosofia.

"A redenção possível da infortuna da irreversibilidade é a faculdade de perdoar e o remédio para a imprevisibilidade está contido na faculdade de fazer e de cumprir promessas. Os dois remédios formam um par: o perdão diz respeito ao passado e serve para desfazer o que foi feito, enquanto que o compromisso através de promessas serve para estabelecer ilhas de segurança no oceano de incerteza futura, sem as quais nem mesmo a continuidade, sem falar de todo tipo de durabilidade, jamais seria possível nas relações entre os homens. Sem sermos perdoados, liberados das conseqüências do que fizemos, a nossa capacidade de agir estaria, por assim dizer, confinada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; permaneceríamos as vítimas de suas conseqüências para sempre, semelhantes ao aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para quebrar o encanto. Sem estarmos obrigados ao cumprimento de promessas, nunca seríamos capazes de atingir aquele grau de identidade e de continuidade que, juntas, produzem a “pessoa” acerca de quem uma estória pode ser contada; cada um de nós estaria condenado a vagar desamparado e sem direção na escuridão de seu próprio coração solitário, enredado em suas contradições e equívocos e em seus humores sempre em mudança." (ARENDT, p.194)

ARENDT, H. “Trabalho, obra, ação”. Trad. Adriano Correia. Em: Cadernos de Ética e Filosofia Política 7, 2/2005, p. 175-201.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

32 dentes

Triste,
saiu chateado do consultório,
vagou pela rua, conversando com o pensamento.
Será que precisa mesmo fazer canal?

Não tô sentindo dor...
Matar um dente é sacrificar uma parte de si.
O canal é a extração da raiz.
A raiz alimenta. Faz o dente pulsar.
Faz o dente sentir tudo.
A língua.
A minha língua.
A língua de Mariana.
Aquele dente não vai mais sentir a língua de Mariana...

Nem tô sentindo tanta dor...
Mas a doutora disse que posso escolher.
É um risco. Se infeccionar ali, pode ser perigoso pra vida de todos os dentes.
E do coração, dos rins, das unhas...
Todos os órgãos do corpo choram pelo dente condenado.

Aguardando o sinal de pedestres, observou-se de dentro pra fora.
As mãos tinham cicatrizes. Marcas de tempos.

Envelheço.

A quantas andam as estatísticas da vida do meu corpo?
Será que meu crescimento vegetativo celular atingiu índices de países desenvolvidos?
Morrem mais células do que nascem? Não sou mais pirâmide?
Tô cansado...

O sinal abriu. Caminhou dois passos.
Não. O sinal não abriu. Foram os olhos que fecharam.
Foi instantâneo. O dente nem sentiu.
Dor.



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Flerte.s.m.

jogo de expectativas com intuito de escapar da solidão
modos de alcançar o outro e se deixar entrever
manutenção do estar só

Brincadeira de ilusão.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

ciclo da água

Entra pela cabeça.
Escorre pelas tubulações e cai
em lágrima.
Em contato com a pele quente,
evapora.
Sobe, sobe, sobe
condensa e chove.
Entra pela cabeça.