terça-feira, 21 de julho de 2015

nós

eu sou muitos
e cada um de nós quer coisas diferentes
falamos alto, ao mesmo tempo
e não nos entendemos
não sabemos dialogar uns com os outros
e por isso não saímos do lugar
se fosse possível, nos separaríamos
mas... enfim... somos eu.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Pausa

Para nada. Só para pausar.

Parar. Por quê? Por espaço.

Vão que cabe no tempo.
Pelo gosto de capturar o silêncio.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

madurando

Observou toda aquela bagunça a sua volta
fechou os olhos.
Foi buscar lá atrás
o cheiro, o som, o gosto
e o aconchego mais primitivo.
Falou de forma tão calma e rítmica,
que o barulho silenciou para ouvir:
"Ouso dizer...
que a revolta libertou menos
Do que a lembrança afetuosa
da ternura da Ama-de-Leite."

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O desafio

 Este era, sem dúvida, o maior desafio que já teve que enfrentar até aquele momento de sua vida. Seu coração pulsava de tal forma que sentia-o na garganta. As mãos suadas e uma sensação de desconforto na boca do estômago. A vista embaçava. Os sentidos todos pareciam desorientados. Sinestesia. Sentia que entraria em choque, caso não resolvesse de uma vez. Sentiu fome, depois teve vontade de vomitar. Faltou ar.
    Era exigido dele que tomasse uma decisão. Se encarasse a questão, nada mais seria como antes. Uma transformação inevitável estava por vir, caso aceitasse o desafio. Não tinha condições de avaliar se aquilo era bom. No íntimo, sentia que se desistisse, um martelo pesado torturaria sua consciência com pancadas de arrependimento durante dias, talvez meses. 
    Andava de lá para cá e de cá para lá. Chutava pedrinhas e o que mais encontrava pela frente. Parava por alguns segundos. Contemplava a movimentação a sua volta. Andava um pouco mais, parava em outra posição. Tentava, de todas as maneiras, olhar sob todas as perspectivas possíveis, calcular as probabilidades, medir os riscos. Em vão. Alguns o observavam com dó, outros com olhar de insignificância e desprezo e um ou outro com ternura. O desespero aumentava quando percebia a mobilização alheia e então tornava a andar de um lado para o outro. 
    Começou a sentir raiva. Muita raiva. Sentiu-se inútil, medroso, incompetente. Em seguida, uma vontade incontrolável de chorar. Os olhos se encheram. Sentiu-se desprotegido, desamparado, sozinho. Engoliu cada gota de lágrima, cerrou os punhos e não deixou que o rosto denunciasse a loucura interna. De repente foi tomado por lembranças. Lembrou da manhã daquele mesmo dia, do seu café com pão e manteiga. Lembrou de três dias atrás, quando viu, da janela da sala, um senhor estacionar o carro em frente a sua casa. Lembrou de pudim de pão. 
    Uma joaninha pousou em seu ombro e o despertou para o presente. Não pensou, nem enxergou e nem sentiu mais nada por quase um minuto. Depois desse tempo, o primeiro contato foi um zumbido no ouvido. Um som parecido com um apito, que aumentava lentamente. Ainda sem pensar em nada, as pernas começaram a se mexer. As pernas andaram e depois correram, cada vez mais rápido. Além de ouvir, voltou a enxergar. Quando deu por si, já estava na beira da piscina, pulando do trampolim de 55 centímetros de altura.  O primeiro pensamento que teve, quando emergiu da água, foi concomitante com sua própria voz, que gritava: "Vem pedrinho, vem, não precisa ter medo, veeeeeem".

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A poesia não admite rascunho.

O insight acontece sem ensaio e as palavras arranham a experiência sem a pretensão de abarcá-la completamente. A epifania não anuncia sua chegada e invade sem piedade, tudo desse jeito assim sem lógica.
A verdade sem censura dói e, por isso, é encantadora.

Enlouqueçamos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

silêncio


Edward Hopper, Automat, 1927



Edward Hopper, Nighthawks, 1942

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Conselhos de Polônio

"Ainda aqui, Laertes! Já devia estar no navio, que diabo!
O vento já sopra na proa de teu barco;
Só esperam por ti. Vai, com a minha bênção, vai!
(Põe a mão na cabeça de Laertes.)
E trata de guardar estes poucos preceitos:
Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo.
Sejas amistoso, sim, jamais vulgar.
Os amigos que tenhas, já postos à prova,
Prende-os na tua alma com grampos de aço;
Mas não caleja a mão festejando qualquer galinho implume
Mal saído do ovo. 
Procura não entrar em nenhuma briga;
Mas, entrando, encurrala o medo no inimigo,
Presta ouvido a muitos, tua voz a poucos.
Acolhe a opinião de todos – mas você decide.
Usa roupas tão caras quanto tua bolsa permitir,
Mas nada de extravagâncias – ricas, mas não pomposas.
O hábito revela o homem,
E, na França, as pessoas de poder ou posição
Se mostram distintas e generosas pelas roupas que vestem.
Não empreste nem peça emprestado:
Quem empresta perde o amigo e o dinheiro;
Quem pede emprestado já perdeu o controle de sua economia.
E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo.
Jamais serás falso pra ninguém 
Adeus. Que minha bênção faça estes conselhos frutificarem em ti."

(Hamlet; Shakespeare traduzido por Millôr Fernandes)