quarta-feira, 24 de abril de 2013

Excerto


“Existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna… No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera. Mas isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres.
E um dia, ao percebermos que suas ocupações são mesquinhas, que suas profissões são enrijecidas e não estão mais ligadas à vida, por que não olhar para eles como uma criança observa algo de estranho, a partir da profundeza do próprio mundo, da amplitude da própria solidão, que é ela mesma um trabalho, um cargo e uma profissão?”

RILKE, R. M. Cartas a um jovem poeta.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

morte

Sonhos alimentam a vida
Sonhos são pétalas
O tempo arranca pétalas

quarta-feira, 13 de março de 2013

keep walking

Decidir como caminhar é difícil.

Descalço pode ser bom.

Sentindo cada passo, o contato com a areia, a onda do mar, o concreto quentinho, o piso de madeira...

Pode ser ruim, pode machucar, o inesperado, algo pontiagudo...

A pele cria resistência, tornando menos incômodo as pedrinhas pelo caminho. 

Mas de tão calejados, os pés podem ficar insensíveis aos pequenos prazeres, como a brincadeira de enterrar e desenterrar os pés, arrastando a areia da praia.

Um sapato impermeável pode ser bom.

Não molhar os pés nos dias de chuva e frio, mantê-los aquecidos.

Mas quem não deixa os pés respirarem por muito tempo está mais propenso a frieiras e bichinhos desse tipo.

Decidir como caminhar é mesmo difícil.

A única certeza é não parar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

poesirréia

sobre o desejo de encontrar a palavra perfeita atrávés de toda e qualquer linguagem e a frustração de nunca conseguir.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

relações

Ofegante, cheguei. Andei um tanto. Corri outro tanto. A chuva apertava. As coisas dos bolsos e das mãos fui enfiando nos lugares, enquanto me recompunha. Um apoio para o guarda-chuva, uma gaveta para a carteira. Ergui os olhos e da janela grande, que tomava praticamente toda a parede, observei o céu nublado. Passo tanto tempo comigo mesmo que me acostumei a observar e descrever minhas próprias ações. Assim, são raras as vezes que me permito observar que me sinto só.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

imagem


A vida é um barquinho,
o oceano, o sentido.

O amor é o vento que empurra o barquinho.

Aos tripulantes,
cabe aprender a velejar.

domingo, 25 de novembro de 2012

Sob(re) a subversão dos caminhos conhecidos:

Tão grande a tristeza que a única possibilidade era reduzir o passo.
Poderia andar para trás, mas isso não a levaria a lugar algum.
Poderia ficar parada, mas isso causaria uma culpa mortal.
Então seguia, experimentando o limite daquela sofrida lentidão...

Não satisfeita, andou em zigue-zague.

Não satisfeita, abandonou o corpo à queda. E então sangrou.