Eu, no meio da floresta, a bordo de um barquinho, imaginava encontrar vários animais diferentes na minha primeira incursão pelo rio Mapuera, rodeado apenas de mata fechada, perto da divisa do Pará com Amazonas e Roraima. Que ingenuidade. O barulho do motor 40 dificultava até nossa conversa dentro do barco. Os bicho tudo sabe da nossa presença muito tempo antes da gente passar pelo trajeto em que eles estão e se afastam ou se escondem muito tempo antes, lógico. Eu é que, acostumado com os barulhos terríveis de motor da cidade, não me liguei que o vício é meu, nosso, de humanos. Inconscientemente, barulho de motor é silêncio pra nós. Só nos incomodamos quando voltamos a atenção pra ele, trazemos pra consciência, ou quando ele nos atrapalha para um ato voluntário. Se parar pra pensar, o barulho de motor é assustador. Como é pra nós o de um bando de bugio.
Na nossa folga optamos por vir pra Alter do Chão, esse lugar encantado e cheio de encantados. O boto rosa já apareceu em duas oportunidades pra mim. Mas é também um lugar cada vez mais afetado pelos sintomas da cidade. Hoje, segunda-feira, acordei cedo e fui pro rio. Peguei um caiaque e atravessei pra ilha do amor. "Ilha do amor". Hum... No fim de semana Alter estava cheio de gente. Pessoas vindas das cidades próximas e de tudo quanto é canto, todas querendo aproveitar o "paraíso". Andando pelas ruas, sentindo o odor de ressaca no ar, chego até a beira do Tapajós. Terra arrasada. Copos plásticos, sacolas, fraldas usadas, todo tipo de coisa na prainha do lado de cá.
Ontem, como um bicho do mato, ao menor sinal de uma JBL, que mais parece uma bazuca, eu me enfiava no mato, assustado como um Saimiri, tentando ir pra longe daquele barulho de caixa-de-som-motor. Só que nesse caso é meio difícil, porque o ser humano criou um negócio que dá para ouvir a quilômetros. Pois bem, passada a tortura, hoje de manhã, naquela ressaca, compadecido com o rio que vomitava na areia as imundices humanas de ontem, olhei para a ilha do amor. Arranjei um caiaque e lá fui. Não tinha ninguém. E não é que eu quisesse estar longe das pessoas. Só queria um lugar, pelo menos por um tempinho, em que existissem apenas sons naturais. Podia ser de bugio, de gente falando, de passarinho (nunca ouvi tanta língua diferente de passarinho como aqui na Amazônia!), qualquer coisa produzida naturalmente. E estava em paz. O rio calmo como um tapete. Realmente parece que dá pra caminhar por essas águas serenas. É lindo! Deve ser de uma visão dessas que surgiu a história de que alguém caminhou sobre as águas... Não deu nem 10 minutos, chega um barquinho vindo de Alter. Descem 4 jovens trazendo engradados para um restaurante da ilha do amor, com uma bazuca da JBL no talo. Só me resta voltar a remar....